el proyecto político pedaGóGico coMo Mediador de la educación LIBERADORA the political-pedaGoGical proJect as Mediator OF THE LIBERATING EDUCATION o proJeto político-pedaGóGico coMo Mediador DA EDUCAÇÃO LIBERTADORA. MARIA CéLIA BORGES DELBERIO marcelbor@gmail.com mariacelia@pontal.ufu.br Universidad Federal de Uberlândia Campus Pontal, Ituiutaba, MG Brasil Fecha de recepción: 22 de febrero de 2007 Fecha de aceptación: 7 de junio de 2007 R e s u m e n Planteamos una discusión acerca del Proyecto Político-Pedagógico (PPP), atendiendo a los aspectos legales, su origen, su importancia, su función formadora y transformadora, así como a los obstáculos que se interponen procurando desviar el PPP de su misión y de su puesta en práctica. También discutimos la necesidad de un proyecto colectivo, en el sentido de reestructurar la escuela para que pueda atender la diversidad de alumnos del sistema escolar, y en consecuencia, aceptar el desafío de hacer una escuela más inclusiva. El PPP es mediador de la democracia escolar y una herramienta capaz de incrementar la calidad de la educación si es asumido colectivamente por todos los integrantes de la escuela. Palabras clave: proyecto político-pedagógico, calidad de la enseñanza, democracia A b s t r a c t We raise a discussion about the Political-Pedagogical Project (PPP), regarding its legal aspects, origin, importan- ce, educational and transformational function, as well as the obstacles that get on its way deviating it from its mission and practice. We also discuss the need of a collective project, in the sense of restructuring school so it can service the diversity of students in the school system, and consequently, accepting the challenge of making a more inclusive school. The PPP is a mediator of school democracy and a tool capable of increasing the quality of education if it is assumed collectively by all school members. Key words: political-pedagogical project, quality of teaching, democracy R e s u m o Colocamos uma discussão sobre o Projeto Político-Pedagógico (PPP), considerando os aspetos legais, sua origem, sua importância, sua função formadora e transformadora, bem como os obstáculos que se interpõem tentando desviar o PPP da sua missão e da sua posta em prática. Também discutimos a necessidade de um projeto coletivo, no sentido de re- estruturar a escola para ela poder atender a diversidade de alunos do sistema escolar, e em conseqüência, aceitar o reto de fazer uma escola mais inclusiva. O PPP é mediador da democracia escolar e uma ferramenta capaz de incrementar a qualidade da educação se for assumido coletivamente por todos os integrantes da escola. Palavras chave: projeto político-pedagógico, qualidade do ensino, democracia 615 EDUCERE • A r t í c u l o s a r b i t r a d o s • ISSN: 1316 - 4910 • Año 13, Nº 46 • Julio - Agosto - Septiembre, 2009 • 615- 625. A r t í c u l o s Educacionais preocupam-se em construir os seus Proje- tos Político-Pedagógicos, mas sim por uma imposição da Lei. Da mesma forma, os docentes e toda a equipe escolar participam do processo antes, porque é dever legal, e não pelo simples desejo e/ou direito de exercer o seu papel de cidadão consciente e participativo. Entretanto, o sistema nacional de educação não apresenta, ainda, o que consiste em um projeto articula- do, unitário e orgânico da educação. A LDB mantém essa fragmentação, pois omite a perspectiva mais ampla do PPP que é o do seu caráter público, democrático e de in- clusão social. Sabemos que Projeto é um “projétil”: algo que se lança para frente, é um empreendimento a ser realizado dentro de determinado esquema. Em latim, Pro-jectu, é o particípio passado de prejicere que significa exatamente lançar-se à frente. Assim, a vida de cada um de nós é um projeto, e nela produzimos e realizamos projetos, é um processo, algo que se faz e refaz continuamente buscando se aperfeiçoar e se desenvolver. E a escola, como um or- ganismo vivo, é um projeto. presente artigo explicita o conteúdo do quarto capítulo da tese de doutorado, do Nessa perspectiva, a escola se faz democrática se Programa de Educação/Currículo da Pon- puder garantir a participação de todos, através de sua tifícia Universidade Católica de São Paulo, apresentada gestão e por um documento denominado Projeto Políti- em dezembro de 2007 e que se intitula “Escola Pública, co-Pedagógico. A “Escola, como um organismo vivo, é Currículo e Educação Emancipadora: o projeto político- um projeto. (..) Seu projeto educativo é o de fazer da vida pedagógico como mediação”. dos educandos um projetar-se para a frente.” (...) viver é projetar-se para um outro modo de ser.” (CASALI, 2004, Neste, discutimos o Projeto Político-Pedagógico p 3). E o “projeto” deve explicitar a cultura, os anseios, os (PPP), apontando a sua legalidade, sua origem, a sua sonhos e as utopias do grupo ou da comunidade. Só assim importância, a função formadora e transformadora, bem terá sentido colocá-lo em prática, efetivando-se como um como os obstáculos que se entrecruzam procurando des- guia que orienta as mudanças e as transformações para o viar o PPP de sua importante missão e a sua viabilização aperfeiçoamento do trabalho escolar. prática. Discutimos também, a necessidade de um projeto coletivo, no sentido de reestruturar a escola para que possa Podemos dizer que o Projeto é Político, pois conta atender à diversidade de alunos presentes no sistema esco- com o processo de envolvimento de várias pessoas e com lar e, conseqüentemente, aceitar o desafio de se construir a participação de todos os segmentos da escola e, inclusive uma escola mais inclusiva. a colaboração da comunidade/bairro, na decisão de ações que efetivem princípios que são estabelecidos com vista Legalmente, a Constituição Federal de 1988 trouxe, à obtenção de objetivos esperados na educação escolar. em seu capítulo dedicado à Educação, a gestão democráti- E, sendo esta democrática, faz-se importante o desenvol- ca do sistema de ensino público como princípio norteador vimento de habilidades, cuidados que sustentem relações da igualdade de condições de acesso à escola e garantia de humanas sustentadas por trocas interativas e saudáveis. padrão de qualidade. Ainda, o Projeto Político-Pedagógico (PPP) foi outorgado pela atual Lei de Diretrizes e Bases da O projeto é também eminentemente Pedagógico, Educação Nacional (LDB 9394/96) e no Art. 14, no inciso porque todo o processo de participação coletivo educa II garante a “I – participação dos profissionais da educação para a cidadania, a consciência política, a autonomia, na elaboração do projeto pedagógico da escola”. a troca e a parceria. Ensina o sujeito, sobretudo, a fa- lar, a se posicionar, a reivindicar, a palpitar, a interferir, Antes, no Art. 13, a LDB determina que “Os docentes portanto, a ser sujeito ativo, crítico, participativo e ca- incumbir-se-ão de: I – participar da elaboração da propos- paz de interferir num determinado contexto. Como ato ta pedagógica do estabelecimento de ensino (...)” . Assim, educativo que se institui não apenas na escola, como muitas vezes, não é por livre escolha que as Instituições também na família, nos movimentos sociais e outros 616 Maria Célia Borges Delberio: el proyecto político pedagógico como mediador de la educación liberadora A r t í c u l o s grupos organizados por pessoas que intencionalmente Assim, o Projeto Educativo é o plano global da Insti- “misturam” suas vidas com a educação. É importante tuição que, no âmbito educacional, visa resgatar o sentido ressaltar que todo ato pedagógico deve ser dialógico humano, científico e libertador do Planejamento. com a sociedade onde se desenvolve com a leitura de mundo para o qual se pretende educar e ainda com a Por conseguinte, o Projeto Político-Pedagógico concepção de homem que se quer educado. (PPP) pode ser entendido como um plano global da ins- tituição escolar. Ele é amplo e incorpora as diferentes Assim, acreditamos, como SEVERINO (1998) que a perspectivas da escola. Trata-se de um processo de Pla-nejamento Participativo que, não sendo definitivo, aper- feiçoa-se e concretiza-se na caminhada. É um documento Instituição escolar se dá como lugar do en- teórico-metodológico que registra um processo vivenciado trecruzamento do projeto coletivo da socieda- e em reconstrução, para a intervenção e mudança da rea- de com os projetos pessoais e existenciais de lidade. Estando dentro de um processo de transformação educandos e educadores. É ela que viabiliza e, portanto, de mudanças, é “um elemento de organização que as ações pedagógicas dos educadores se e integração da atividade prática da instituição(..) ”.(VAS- tornem educacionais, na medida em que os im- CONCELLOS, 2000, p. 169). pregna das finalidades políticas da cidadania que interessa aos educandos. Se, de um lado, Um projeto exige compromisso e responsabilidade a sociedade precisa da ação dos educadores com as ações e implementações novas. É ruptura com o vel- para a concretização de seus fins, de outro, os ho e compromisso com o novo. Precisa ter bem claro onde se educadores precisam do dimensionamento po- deseja chegar e que tipo de homem se pretende formar. Nesse lítico do projeto social para que sua ação tenha sentido, Romão e Gadotti (1994) apud (PADILHA, 2005, p. real significação como mediação do processo 44) definem o Projeto Político-Pedagógico nestes termos: humanizador dos educandos. (p. 81). É preciso entender o projeto político-pedagó- Nesse prisma, para a construção do PPP é impres- gico da escola como um situar-se num horizon- cindível todo um processo de planejamento coletivo, que te de possibilidades na caminhada, no cotidia- carece de tempo, disposição, conhecimento didático/me- no, imprimindo uma direção que se deriva de todológico/ pedagógico e, sobretudo, utopia, esperança e respostas a um feixe de indagações tais como: desejo de mudança. que educação se quer e que tipo de cidadão se deseja, para que projeto de sociedade? A Como resultado desse processo de planejamento, direção se fará ao se entender e propor uma temos o plano, que é o documento escrito que serve para organização que se funda no entendimento a articulação entre os fins e os meios. Assim, ele ordena, compartilhado dos professores, dos alunos e realimenta e modifica todas as atividades pedagógicas, demais interessados em educação. tendo em vista os objetivos educacionais e, conseqüen- temente, a melhoria e o aperfeiçoamento do trabalho da equipe escolar. Para a construção do PPP, deve-se viven- Portanto, para a escola ter uma direção a seguir e po- ciar todo um processo de planejamento. Neste, deve-se der perseguir seus objetivos e alcançar metas, é necessário considerar o instituído, aquilo que já existe concretamente planejar o conjunto de ações a serem realizadas. A conce- – a legislação, o currículo, os conteúdos e métodos de en- pção pedagógica explicitada revela o perfil do cidadão que sino, a equipe escolar – e também o instituínte da cultura se pretende formar. Só assim é possível controlar o rumo escolar, uma vez que cria objetivos, instrumentos e pro- pretendido e manejar a história, com consciência do que cedimentos novos, valores e modos de agir, almejando o faz e do que pretende fazer. Por isso, o aperfeiçoamento e a construção de uma nova escola. Ex- pressa, portanto, sinteticamente, os desejos e as propostas Projeto Pedagógico Escolar é a oportunidade de dos educadores que atuam na escola. a Escola tomar-se nas mãos, e definir por si, co- letivamente, participativamente, os seus compro- A elaboração de projetos com finalidades educati- missos junto aos alunos, junto a suas famílias. vas, estabelece perspectivas e valores, contendo as aspi- Essa é a forma de realizar de modo mais acaba- rações da comunidade global e em torno das quais se faz do o seu caráter cultural, democrático e educati- acordos e consensos. Sempre é imbuído de característi- vo, junto à Comunidade. (CASALI, 2004, p. 4) cas ideológicas e políticas, e por isso, carece de um longo tempo para o seu desenvolvimento. Necessita de uma pro- Assim, o Projeto Político Pedagógico orienta o pro- gramação que favoreça, de um lado, a viabilização prática cesso de mudança, direcionando o futuro pela explicitação e, de outro, a superação de teorias irreais e utópicas. de princípios, diretrizes e propostas de ação para melhor 617 EDUCERE • A r t í c u l o s a r b i t r a d o s • ISSN: 1316 - 4910 • Año 13, Nº 46 • Julio - Agosto - Septiembre, 2009 • 615- 625. A r t í c u l o s organizar, sistematizar e dar significado às atividades des- escola, que deve ser sempre voltado para um ensino de envolvidas pela escola como um todo. Além do mais, a maior qualidade, que atenda às necessidades e aspirações sua dimensão político-pedagógica pressupõe uma cons- da classe menos favorecida. trução coletiva e participativa que envolve ativamente os diversos segmentos escolares. A presença maciça das fa- Por tudo que já foi dito, é inegável o valor do PPP mílias é importantíssima, para que possam dizer a sua voz para as instituições escolares. Trata-se, pois, de uma exi- e apresentar que tipo de escola desejam para seus filhos. gência legal, mas, sobretudo, é um instrumento capaz de Na experiência de participação na construção do PPP garantir o avanço no processo de democratização da es- cola, bem como da conquista de maior autonomia, tendo as pessoas ressignificam suas experiências, em vista a busca da melhoria da qualidade do ensino para refletem sobre suas práticas, resgatam, reafir- escola pública popular. mam e atualizam valores, explicitam seus son- hos e utopias, demonstram seus saberes, dão Na construção do PPP é preciso partir da prática so- sentido aos seus projetos individuais e coleti- cial, tendo o estudo do cotidiano escolar como base para vos, reafirmam suas identidades, estabelecem orientar todo o processo, que deve estar voltado para a novas relações de convivência e indicam um solução dos problemas da educação, do currículo e do pro- horizonte de novos caminhos, possibilidades e cesso ensino-aprendizagem na escola. A gestão escolar, os propostas de ação. (PADILHA, 2003, p. 13). diferentes pedagogos, professores e pessoal auxiliar da administração da Instituição e toda a comunidade escolar Na construção do PPP é preciso partir da prática so- devem trabalhar com o objetivo comum de garantir que a cial, tendo o estudo do cotidiano escolar como base para escola cumpra a sua função social. orientar todo o processo, que deve estar voltado para a solução dos problemas teóricos e práticos da educação, do Considerando que o Projeto Político Pedagógico currículo e do processo ensino-aprendizagem na escola. A (PPP) deve ser construído em função de uma educação es- gestão escolar, a organização da Instituição e toda a comu- colar que compreenda as diversas interferências e interes- nidade escolar devem trabalhar com o objetivo comum de ses que perpassam a sociedade, nele devem estar contidos garantir que a escola cumpra a sua função social. pressupostos que assegurem meios que sustentem uma instituição de cultura, de socialização do saber, de ciência, Ao conceber o Projeto Político Pedagógico há ne- técnicas e artes produzidas socialmente. cessidade de se considerar princípios teóricos e metodo- lógicos, lembrando sempre que a educação escolar tem Elegemos como necessário entender que é no espaço como função específica a formação do homem para a con- da escola que se dá a unidade do processo educativo, uni- vivência em uma sociedade onde os desafios são constan- dade impossível de ser concretizada de forma democrática tes, razão pela qual a mesma não pode deixar de garantir e efetiva, apenas por força de legislação. o acesso aos instrumentos de produção científica, cultural, técnica e política. Por isso, a proposta de um Projeto Político Pe-dagógico apresentada por educadores brasileiros é a Na construção do PPP faz-se necessário enfrentar o expressão de suas convicções sobre a necessidade de desafio da mudança na organização do trabalho pedagógi- organização da escola por meio de intencionalidades co, questão a que se atrela a proposição de um currículo. claramente postas em defesa de uma escola realmente democrática. São questões apontadas como resultado Todo esse processo amplo de discussão, debate, tro- de reflexões, investigação, autocrítica e o entendimento cas e interações, também fazem parte do Currículo da es- de que a escola só pode chegar à consecução de obje- cola, pois, entendemos que “toda a Escola é um organismo tivos humanizadores da educação se abrir espaço para vivo, tudo o que se passa dentro dela “ensina”, e todas as que nela ocorra um processo participativo de vivência pessoas que a compõem são permanentemente afetadas e de um projeto social democrático, que no cotidiano da “ensinadas”... (CASALI, 2004, p. 2). Nessa perspectiva, mesma concretizem-se em valores e abram caminhos a nossa concepção de currículo implica pensar a escola para a autonomia por meio de uma prática que conside- como totalidade orgânica e não como um instrumento bu- re o tempo histórico em que acontece. rocrático, estático e engavetado. Como se organiza for- malmente a escola e a tudo o que está em curso na escola, Reafirmando, Veiga (2001, p. 13) diz que o proces- damos o nome de Currículo. so de construção do PPP propicia o debate e a discussão, O PPP tem que considerar e, sobretudo, interferir permitindo aos professores fazerem uma reflexão acerca e aprimorar o Currículo escolar, tendo em vista o aper- da concepção da educação e sua relação com sua práti- feiçoamento do trabalho pedagógico desenvolvido na ca pedagógica, com a sociedade e com a escola, o que leva também à reflexão sobre o homem a ser formado, a 618 Maria Célia Borges Delberio: el proyecto político pedagógico como mediador de la educación liberadora A r t í c u l o s cidadania e a consciência crítica. Assim, coletivamente, eticamente comprometidos com uma prática pedagógica a consciência crítica será despertada, junto ao desejo de de qualidade, convoca e envolve a participação da comu- se construir uma nova realidade. A discussão e a reflexão nidade para um projeto humano emancipatório. crítica leva a refletir sobre (...) “o papel dos homens no mundo e com o mundo, como seres da transformação e Acreditamos firmemente que o Projeto Político- não da adaptação.” (FREIRE, 1983, p. 136). Pedagógico é uma ferramenta importante que a escola dispõe para adensar a qualidade da educação para todos. Mais do que nunca, os professores devem estar aten- Entretanto, sabemos também que no cotidiano das escolas tos, ler, estudar, discutir as questões sociais, compreender evidencia-se uma distância entre o dito e o feito. as ideologias e intenções do projeto neoliberal, pois, a do- cência ou o exercício da prática educativa exige, por parte Percebemos que a implementação do Projeto Polí- dos educadores, “uma atenta e constante vigilância frente tico-Pedagógico em grande parte das escolas, ainda não aos riscos da ideologização de sua atividade, seja ela des- produziu os efeitos desejados com relação à qualidade de envolvida na sala de aula ou em qualquer outra instância ensino. E, para justificar essa afirmação, elencamos alguns do plano macrossocial do sistema de educação da socieda- obstáculos que acreditamos estar dificultando o processo. de”. (SEVERINO, 1998, p. 86). Dentre esses, elencamos : A democratização da sociedade brasileira e, espe- cificamente, a da educação, dar-se-á não apenas pela ga- - A falta de vivência democrática dos brasileiros, que rantia de acesso à escola, mas também da permanência e não sabem ainda usufruir a oportunidade de exercer do sucesso do educando. A escola precisa cumprir a sua a sua cidadania, participando, interferindo e mudan- função social. Sua “contribuição se consubstancia na ins- do o rumo da história; trumentalização, isto é, nas ferramentas de caráter históri- - Dificuldade de liderança para mediar o diálogo, ga- co, matemático, científico, literário etc., cuja apropriação rantindo a participação e o processo democrático, de o professor seja capaz de garantir aos alunos.” (SAVIANI, modo a valorizar e aproveitar as diversas opiniões, 2005, p. 89). idéias e ideais em jogo no coletivo de pessoas de cada escola; A escola apresenta uma cultura, cujo conteúdo cons- - A rotatividade dos professores nas escolas que não titui-se como objeto de ensino. Além de participar como permite a criação de vínculos e compromisso com a sujeitos ativos e autônomos na construção do PPP, os pro- instituição e comunidade na qual estão inseridos; fessores devem conhecê-lo inteira e completamente. Pois, - Falta a organização do tempo escolar visando favo- ao dominá-lo, será mais fácil impedir que se desvie de recer o estudo, a discussão, o planejamento conjunto seus propósitos. Assim, é preciso conhecer bem os con- e a troca de experiência entre os pares. O sistema textos políticos externos e internos da escola, para poder- de ensino contrata o professor por hora-aula, o que mos nos aproximar dos seus modos próprios de regulação/ dificulta o processo de planejamento; manutenção e também de transgressão/transformação, - As limitações da formação docente, bem como a dos seus projetos de conformação/regulação e de eman- sua deturpada visão de mundo; cipação/libertação. - A falta de valorização do trabalho docente, com baixa remuneração, levando o professor trabalhar A formação continuada dos professores, quando co- de duas até seis diferentes escolas, o que representa letiva, junto com a diversidade representada pelos múlti- uma sobrecarga de trabalho; plos segmentos sociais que compõe a escola, é também - Faltam aos professores as condições econômicas, autoformação e mobiliza à reelaboração constante dos físicas e emocionais para pesquisa, leitura e atuali- saberes que realizam em sua prática. Por isso no processo zação constante; de construção do PPP, a escola se organiza num espaço de - No processo e efetivação do Projeto Político-Pe- trabalho e de formação, o que garante a gestão democráti- dagógico da Escola, muitas vezes as relações e in- ca e participativa. Os educadores éticos, como intelectuais terações entre o grupo ainda são efêmeras, sem den- críticos, serão capazes de aprimorar e praticar o discurso sidade, sem vínculo e, portanto, sem compromisso da liberdade e da democracia, envolvendo toda a comuni- com o crescimento do grupo e a melhoria da escola; dade escolar. - Faltam conhecimento e consciência clara para a maioria dos educadores sobre a importância e o sig- Com a diversidade de representantes sociais parti- nificado do Projeto Político-Pedagógico; no sentido cipando da vida da escola, os professores certamente se de construí-lo com entusiasmo, superando a cômoda sentirão mais fortes e apoiados pela sua comunidade, con- idéia de apenas cumprir uma exigência burocrática clamados a se comprometer cada vez mais com uma esco- e assumindo-o realmente o “projeto” que ilumina e la melhor. Por fim, a formação de professores reflexivos, orienta as transformações necessárias para a melho- 619 EDUCERE • A r t í c u l o s a r b i t r a d o s • ISSN: 1316 - 4910 • Año 13, Nº 46 • Julio - Agosto - Septiembre, 2009 • 615- 625. A r t í c u l o s ria da qualidade de ensino da escola, com o compro- Quando a criança não aprende, a família é chamada misso e o envolvimento de toda a comunidade; e advertida a dar mais apoio à criança, e, muitas vezes, os - Dificuldade em manter a coerência entre o sonho e pais são intimados a ajudar a “ensinar” e fazer com que a realidade da escola; a criança aprenda. Nesse sentido, a escola muitas vezes - A dificuldade em manter a continuidade dos esfo- delega aos pais o que é de sua competência. Normalmente, rços. Nem todos querem continuar a caminhada, por a escola coloca a culpa do fracasso da criança no descuido não compreenderem bem o processo ou por cansaço ou displicência da família ou em problemas hereditários e/ pela sobrecarga de trabalho; ou emocionais, e levanta a hipótese ou supõe que a criança - Falta de compromisso ético com a escola pública possui alguma patologia ou alguma doença que explique o de boa qualidade, bem como a falta de entusiasmo, seu “não aprender”. Quando isso acontece, normalmente esperança e utopia no exercício da docência. encaminham a criança a uma avaliação diagnóstica, com laudo do psicólogo ou médico-neurologista, buscando Assim, Marx no século XIX afirmou que os homens confirmar as suspeitas patologias. Na maioria dos casos, a fazem a história, contudo, sob as condições que lhe são existência de patologias são descartadas. Contudo, dificil- dadas. mente acontece o inverso: dos pais questionarem a escola do porquê ela não consegue ensinar da forma como o seu Seus novos intérpretes leram isso no sentido filho possa aprender. de que os indivíduos não poderiam de nen- huma forma ser os ‘autores’ ou os agentes da Assim, como instituição superior, detentora da auto- história, uma vez que eles podiam agir apenas ridade do saber, a escola muitas vezes culpa e humilha os com base em condições históricas criadas por pais, responsabilizando-os pelas suas próprias limitações. outros e sob as quais eles nasceram, utilizan- do os recursos materiais e de cultura que lhes Também é verdade, que as poucas oportunidades foram fornecidos por gerações anteriores. que são oferecidas às famílias para a participação na esco- (HALL, 2005, p. 34-35). la, essas são presenças sem brilho, que pouco interferem na vida da escola, transformado em indivíduos úteis para Acreditamos que a realidade, no interior e co- endossar/aprovar projetos, verbas e decisões anteriormen- tidiano das escolas, muitas vezes dificulta o processo de te resolvidas. mudança. Tal realidade se materializa nos parcos recursos que têm sido aplicados na educação e no descaso dos go- Por isso é que quando os pais participam do colegia- vernantes para garantir a sua qualidade. do, muitas vezes permanecem calados e concordam com tudo os que “os entendidos do assunto” resolvem. Por isso, Para reverter a situação, necessitamos também de faz-se necessário reestruturar e revigorar a administração muita vontade política, materializada em ações concretas dos colegiados escolares, procurando tornar realidade as no cumprimento dos compromissos assumidos junto aos idéias de representatividade e participação, principalmen- eleitores. Que nossos governantes abracem o projeto de te dos pais e dos alunos. melhoria da escola e inclusão educacional não apenas no discurso político, mas, efetivamente, nas práticas e ações Nesse aspecto, Padilha (2005) opina dizendo que a voltadas para a valorização dos docentes e da reestrutu- participação dos pais como também dos alunos deve “dar- ração da escola, vislumbrando a qualidade de ensino para se na programação de atividades, na coordenação de even- todos. Discursos não são suficientes para provocar mu- tos intra e extra-escolares e no estudo da realidade. Eles danças, carecemos de ações concretas urgentes, para mel- devem vincular-se principalmente aos diversos colegiados horar a escola das vítimas do sistema capitalista. existentes na escola, com o que estarão até mesmo conso- lidando a prática participativa”(p.74). A participação coletiva na escola, o papel da famí- lia, é importantíssimo. Contudo, é verdade que os pais vão Na construção do PPP toda a equipe escolar deve muito pouco à escola. Quando vão, sua visita à escola tem assegurar a presença ativa da família, de forma que possa como objetivo reclamar ou, mais comumente, ouvir recla- refletir, sugerir, apontar caminhos, questionar e participar mações sobre o comportamento ou sobre as notas – ou da gestão democrática. Assim, sobre o descaso pelos estudos - de seus filhos. Considerar a família como um segmento in- São chamados também quando as escolas organizam dispensável para a construção de um proje- suas festas, cujo objetivo principal é a arrecadação de fun- to político-pedagógico parece cada dia mais dos para o caixa escolar, uma vez que as verbas recebidas importante e necessário, inclusive porque as não são suficientes para a manutenção das escolas. articulações da família com a escola se trans- 620 Maria Célia Borges Delberio: el proyecto político pedagógico como mediador de la educación liberadora A r t í c u l o s formam, assim como as novas estruturas que texto. Dentre elas, citamos projeto, participação, democra- sustentam as relações familiares. (VEIGA, cia, eqüidade, qualidade, diversidade, e autonomia. Esta 2001b, p. 62) última, não deve ser confundida com participação, com autogestão e nem co-gestão, mesmo havendo alguns pon- Nesse mesmo sentido, Paulo Freire (2005) diz que é tos comuns nessas expressões. impossível democratizar a escola, de verdade, sem escan- carar as portas da escola “(...) à presença realmente parti- Podemos afirmar que os PPPs carregam consigo cipante dos pais e da sua própria vizinhança nos destinos conflitos de valores de toda ordem, explicitando diferentes dela. Participar é bem mais do que, em certos finais de visões de mundo, crenças, afetos e significados, perante semana, ‘oferecer’ aos pais a oportunidade de, reparando a diversidade dos atores nele envolvidos. Contudo, pode- deteriorações, estragos nas escolas, fazer as obrigações do mos dizer também que “os PPPs comportam conflitos de próprio Estado. (p. 127). interesses (de grupos, classes) que emanam basicamente de duas lógicas distintas: a reguladora e a emancipadora”. Muitas vezes os próprios pais se afastam da escola ar- (DE ROSSI, 2004, p. 14). gumentando que não entendem de educação e que não sa- bem utilizar a linguagem da escola. Isso porque a escola usa Nesse sentido Veiga (2001b) afirma que há projetos uma linguagem muito distante da utilizada pelos pais e pelas reguladores concebidos como instrumentos de controle por crianças. Mas, também nesse sentido, Freire (2005) alerta políticas públicas assentadas na lógica empresarial e que co- que a escola não conseguirá ser democrática, de fato, se não rrespondem à economia competitiva de mercado, viabiliza- conseguir superar os preconceitos “(...) contra as classes po- dos por estratégias operacionais advindas de vários centros pulares, contra as crianças chamadas ‘pobres’, sem superar de decisão. Por isso, o projeto regulador está a serviço da os preconceitos de sua linguagem, sua cultura, os preconcei- concepção do planejamento estratégico, que valoriza mais o tos contra o saber com que as crianças chegam à escola.” (p. produto do que o processo e, assim, desarticula a existência 127). A escola deve considerar e respeitar a cultura da comu- dos conflitos, buscando novas formas de alinhamento, utili- nidade e, a partir daí, aprimorá-la e elevá-la à uma cultura zando uma retórica gerencialista e discursos político-norma- mais sistematizada e elaborada. tivos para sustentar mudanças anunciadas. Acontece o mes- mo na situação da gestão escolar. Para superar essa situação de frágil participação dos pais e alunos nos rumos da escola e na construção de Por isso, a mesma autora reafirmou em outra obra a uma escola de melhor qualidade, Freire (2005) sugeriu a importância de refletir sobre todas as relações existentes criação dos Conselhos Populares, pelos quais se tornaria na escola e sobre as políticas alicerçadas na visão estraté- “(...) possível que se dê em nível profundo uma real parti- gica; e assim “(...) buscamos compreender os pressupostos cipação da comunidade de pais e de representantes de mo- que devem embasar a construção do projeto político- pe- vimentos populares na vida inteira das escolas”. (p.48) dagógico da instituição educativa na visão emancipado- ra.” (VEIGA, 2001b, p. 46) Lima (2002) afirma que para a construção de uma escola democrática para todos, aberta á diversidade sócio- Nesse prisma, o PPP pode apresentar, de um lado, cultural e promotora de uma educação multicultural, exige uma concepção teórica e prática que se coloca a serviço da a participação dos pais e de outros setores comunitários. manutenção da estrutura social desigual ou, por outro, tra- Todos juntos podem melhorar e permanecer na escola para balhar a favor da superação das desigualdades e em busca reconstruí-la e aperfeiçoá-la sempre. Com o envolvimento de uma escola de maior qualidade para todos. de pais, mães ou responsáveis na vida e nas decisões da escola estarão, de fato, formando o aluno para o exercício A primeira concepção do projeto da escola localiza- da cidadania. se numa lógica estratégico empresarial, na qual, segundo VEIGA (2001b): Os pais têm de ser tomados como colaborado- res efetivos da escola, para os quais as portas devem As palavras de ordem passam a ser eficiência estar sempre abertas. Sua presença deve ser sempre e custo, deslocando-se o eixo da discussão dos bem acolhida, bem como as suas queixas, sugestões, fins para os meios, propiciando a desqualifi- críticas e intervenções, tendo em vista, a concreti- cação do magistério, o atrelamento da escola zação de uma escola democrática, participativa e de aos interesses empresariais e do capital e o melhor qualidade. desvinculamento dos seus determinantes so- ciopolíticos. Trata-se, portanto, de um projeto Já é do nosso conhecimento que a política neolibe- político-pedagógico inserido no contexto de ral tem delegado diferentes sentidos a muitas palavras e reestruturação do capitalismo. (p. 48, grifos expressões que representam as categorias discutidas neste da autora). 621 EDUCERE • A r t í c u l o s a r b i t r a d o s • ISSN: 1316 - 4910 • Año 13, Nº 46 • Julio - Agosto - Septiembre, 2009 • 615- 625. A r t í c u l o s Nessa perspectiva, a escola continua funcionan- Nesse prisma, Romão (2002) já alertava que o ideá- do submissa aos valores do mercado, voltada para rio neoliberal se apropria da literatura produzida pelo a formação de “clientes e consumidores”, com uma pensamento pedagógico progressista brasileiro, e como prática excludente e seletiva. Existem também, nessa exemplo cita a Escola Cidadã frente ao projeto pedagógi- escola, contradições entre o discurso democrático e co neoliberal, sublinhando o o processo autoritário de tomada de decisões, entre os que pensam e os que fazem. O seu objetivo maior (...) perigo das armadilhas da ideologia hege- é garantir uma qualidade formal, que procura expli- mônica que, ou desqualifica discursos e pro- citar o desempenho da escola por meio de um pla- postas diferentes ou alternativas aos seus, ou nejamento tecnicista e considerado eficaz. Portanto, apropria-se das proclamações e dos projetos conserva as idéias da escola tradicional/tecnicista e de maior appeal político do campo adversá- mantém os valores da QT (qualidade total). Combi- rio, descaracterizando-as e deixando os con- na, também, perfeitamente, com os valores da orien- frontamentos sem bandeiras. (p. 97). tação neoliberal. Assim, o Projeto Político-Pedagógico também pode Dentro desse modelo de gestão da escola tipo em- representar apenas uma via para a efetivação do ideário presarial, focada no serviço do cliente e no produto, é neoliberal. Nesse sentido De Rossi (2004, p. 51) diz que que se justifica a concepção do plano de desenvolvi- mento da escola, mais conhecido como PDE. Este “(...) opera com base em quatro grandes separações do tra- (...) é possível dizer que o primeiro aspecto da balho: o pensamento separado da ação; o estratégico revolução da modernidade está ligado à di- separado do operacional; os pensadores separados dos fusão do projeto pedagógico e sua colocação concretizadores; os estategistas separados das estraté- no âmbito do Estado. A modernidade nasce gias”. (VEIGA, 2001b, p. 47) como projeção pedagógica que consiste, am-biguamente, em um duplo desafio: a dimensão Diante desse contexto, precisamos refletir e agir cri- da conformação e a da libertação. ticamente para alterar e superar essa realidade. Sabemos que a falta de vivência democrática e a carência de visão Nesse sentido, entendemos que o PPP é um instru- crítica sobre o mundo, minimizam a visão de mundo dos mento complexo e dialético, também contraditório, que excluídos e os tornam passivos diante de tantas adversida- caracteriza a educação do mundo moderno e permanece des. Assim, percebemos que: no centro da história moderna e contemporânea. Assim, se por um lado ele representa um objeto de transformação, por outro pode ser também instrumento de manutenção do A alienação do dominado e do dominador são de ní- status quo. veis diferentes. A do primeiro deriva do trabalho alienante e do tráfico ideológico; a do segundo é conseqüência da Por isso, é preciso que num projeto educacional, transformação da vida num mercado e de todos os valo- todas as pessoas da comunidade, precisam compartilhar res em mercadorias. As aspirações, projeções e ideais das suas intencionalidades, aprender a exercer sua politicida- classes dominantes, no sentido de que a sociedade não de por meio da participação efetiva e interventiva no con- mais se altere, seja terminal, faz com que as potenciali- texto social. É preciso que coletivamente, com entusiasmo dades transformadoras e, consequentemente, libertadoras e esperança, seja construído um projeto coletivo, tendo em fiquem obstaculizadas pelo lado desses segmentos sociais. vista as transformações sociais. Assim, (ROMÃO, 2002, p. 26). Mesmo quando as condições histórico-so- A autonomia da escola, outorgada pela LDB, ciais de uma determinada sociedade estão não passa, até o momento, de uma utopia. É mais uma deterioradas, marcadas pela degradação, alternativa da modernidade ou do sistema neoliberal para pela opressão e pela alienação, como é o despolitizar o sistema, com discurso moderno e inovador, caso da sociedade brasileira, o projeto edu- defende a inserção dos professores, os pais, os alunos e cacional se faz ainda mais necessário, de- toda a comunidade local, num processo que se diz neutro. vendo se construir então como um projeto Segundo De Rossi (2004, p. 23) são artimanhas e táticas fundamentalmente contra-ideológico, ou da estrutura de poder vigente, composta pelos grandes seja, desmascarado, denunciando e critican- grupos econômicos, trabalhando com bases e apoios inter- do o projeto político opressor e anunciando nacionais, cujo objetivo é recriar as instituições, privatizá- as exigências de um projeto político liberta- las e ampliar o lucro e o consumo em escala mundial. dor. (SEVERINO, 1998, p. 82). 622 Maria Célia Borges Delberio: el proyecto político pedagógico como mediador de la educación liberadora A r t í c u l o s Apesar da interferência da política neoliberal e de Sabemos que a escola constitui-se como um órgão de todas as limitações que se apresentam na nossa socie- institucionalização das mediações reais para que uma inten- dade e, especificamente no cotidiano das escolas, reafir- cionalidade possa se efetivar de forma concreta, histórica, mamos a idéia de Paulo Freire que foi registrada em sua para os objetivos de mudança e transformação, os sonhos e as tese no ano de 1959, cujo título é Educação e atualidade utopias, não permaneçam no plano ideal, mas ganhem forma brasileira, a qual é retomada por Romão (2002), e neste real, na práxis escolar que se estenderá à toda a sociedade. momento, por nós, na presente investigação. A supe- ração dos obstáculos que se opõem à construção de um O Projeto Político-Pedagógico foi pensado e faz projeto de nação independente só seria possível com sentido somente quando se constituir em um processo de- a assunção do processo de transformação social pelo mocrático de decisões, e preocupar-se em povo. Mas, para tanto, esse nosso povo precisa de enri- quecer a sua cultura, e se constituir dentro de um pro- cesso de conscientização crítica, que lhe permita enxer- (...) instaurar uma forma de organização do gar outros horizontes e novas perspectivas. Somente a trabalho pedagógico que supere conflitos, partir de um Projeto Político-Pedagógico “autêntico”, buscando eliminar as relações competitivas, adequado ao atendimento das necessidades reais, por corporativas e autoritárias, rompendo com isso com autoria própria, estará “apoiado em condições a rotina do mando impessoal e racionaliza- históricas propícias” Freire (1959) apud (ROMÃO, do da burocracia que permeia as relações no 2002, P. 31). interior da escola, diminuindo os efeitos frag-mentários da divisão de trabalho que reforça O envolvimento de toda a comunidade escolar é im- as diferenças e hierarquiza os poderes de de- portante porque o “homem só pode existir efetivamente na cisão. (VEIGA, 2004, p. 14). exata medida em que vai se relacionando com a natureza, através do trabalho; com a sociedade, através da prática Portanto, o Projeto é que vai indicar os novos ca- social; e consigo mesmo, pelo cultivo da própria subjeti- minhos e viabilizar as mudanças. Acreditamos, firme- vidade” (SEVERINO, 1998, p. 84). mente, que o Projeto é importante instrumento mediador e efetivador de transformações. Acreditamos que, com Nessa mesma perspectiva, reafirmamos com Paulo um projeto consistente, democrático e que representa Freire e Romão a idéia de que é preciso que cada comu- de fato, o desejo de todos, é possível encontrar formas nidade aprenda a fazer uma leitura crítica do mundo, o de driblar as distorcidas intenções do neoliberalismo. que implica uma análise das condições de vida dos do- O projeto é, portanto, eficiente instrumento capaz de minados e a transformação de seu saber que, embora adensar uma transformação qualitativa na educação e, contenha substâncias espúrias da consciência do domi- conseqüentemente, contribuir para a conquista de uma nador, traz consigo virtualidades transformadoras. As- sociedade mais justa e humana. sim, a tensão dialética utilizada por Paulo Freire e reafir- mada por Romão (2002) se faz presente, pois, se por um Retomamos a idéia de que, por um lado, as insti- lado, a massa dominada e excluída apresenta sintomas de tuições são reprodutoras porque existe o instituído, o opressão, alienação e inércia; por outro, carrega consigo, que é dado, o real, o que já fora construído. Por isso, em embora ainda adormecidos, virtudes de luta, de ousadia, seu bojo, a instituição já representa um desenvolvimen- de coragem para superar as condições desumanas e con- to, pois já tem uma história de construção. Por outro, a struir uma nova realidade. instituição apresenta também a vertente de instituinte, que é a possibilidade de se re-fazer, se inovar e de se re- Gramsci foi inspirado por Marx e, por isso, deu criar. O desenvolvimento é, portanto, histórico. Aconte- importância à escola e a concebeu como organização ce considerando o já instituído. É posterior a ele. cultural dos trabalhadores, cuja finalidade maior seria a emancipação social e política das classes subalternas. Por meio do Projeto Político-Pedagógico construído Além disso, destacou a práxis inteligente do humano, com a convicção coletiva de que esse é o caminho para a como um novo princípio educativo de escola unitária transformação, acreditamos que seja possível conquistar para todos. Portanto, na perspectiva socialista, a cultura maior autonomia. Nesse sentido, a autonomia, deve ganhar significado de direção intelectual e política para organizar as massas. Nesse sentido, pensamos em (...) na escola cidadã, pressupõe, pois, a al- organizar o povo, no sentido de esclarecer-lhes as dúvi- teridade, a participação, a liberdade de ex- das, informar-lhes sobre as contradições desse mundo, pressão, o trabalho coletivo na sala de aula, no sentido de promover-lhes a uma visão clara e cons- na sala de professores, na escola e fora dela. ciente do mundo, tendo em vista a libertação de toda A educação enquanto processo de conscien- forma de opressão e desumanização. tização (desalienação) tem tudo a ver com a 623 EDUCERE • A r t í c u l o s a r b i t r a d o s • ISSN: 1316 - 4910 • Año 13, Nº 46 • Julio - Agosto - Septiembre, 2009 • 615- 625. A r t í c u l o s própria autonomia e, como esta se fundamen- Por tudo isso, insistimos que devemos manter ta no pluralismo político-pedagógico, garante acesa a esperança e também reavivar a nossa utopia. a mudança possível no próprio sistema edu- Pois, conforme Paulo Freire nos ensinou, não podemos cacional e nos próprios elementos que o inte- abandonar a ira diante das injustiças; nem a capacidade gram. (PADILHA, 2005, p. 67). de indignação diante de tudo que desumaniza e, nem muito menos, perder a amorosidade com relação à vida, Oportunamente, voltamos ao pensamento de Veiga ao outro, e à construção – por meio de um projeto - de (2001b) que nos coloca como alternativa uma outra pos- um mundo melhor. sibilidade de concepção de PPP na escola, dentro de uma perspectiva da educação emancipatória, combinada com a Por isso, no próximo capítulo, vamos discutir a si- idéia de escola cidadã de Paulo Freire. Nessa concepção tuação opressora em que nos encontramos, bem como a emancipadora, diferentemente percebemos que é preciso angústia e o desânimo que assolam nossos educadores. superar a visão conservadora e extrapolar o centralismo Contudo, propomo-nos a buscar enxergar possibilidades burocrático. Isto pressupõe o de superação de tal situação. Se temos um projeto, é por- que desejamos ir além, seguir adiante, para conquistar (...) envolvimento de diferentes instâncias que uma nova realidade. Somos um vir-a-ser e a história está atuam no campo da educação, além do coletivo apenas no começo. Acreditamos que existe um caminho da escola, na construção de seu projeto político- promissor. pedagógico, exprimindo sua intencionalidade pedagógica, cultural, profissional e construin- do um modelo de gestão que podemos entender como democrático. (VEIGA, 2001b, p. 55) Nesse prisma, o processo democrático de gestão * Maria Célia Borges Dalberio constituiria, de fato, o caminho para a construção de uma Doutora em Educação/Currículo pela Pontifícia Universidade Católica de escola de maior qualidade de ensino. Nessa escola, tem de São Paulo, é docente na Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal, Minas Gerais, Brasil. haver a participação efetiva da comunidade escolar e um ** Karl Marx chamou o povo dominado de “explorados”, Paulo Freire os trabalho coletivo e comprometido entre todos os segmen- denominou de “oprimido” (Pedagogia do Oprimido); Saviani de “domina- tos escolares. Assim, a unidade entre a teoria e a prática dos”; Dussel de “vítima” (ética da Libertação). Todos são representados estaria preservada, com o aperfeiçoamento constante da pelos pobres, que não podem usufruir da maioria dos bens socialmente competência técnica, teórica e política, para todos os cida- produzidos, por isso são os excluídos da sociedade capitalista que os dãos que fazem e que se importam com a educação. aliena, explora e desumaniza. B i b l i o g r a f i a Brasil. (1996) Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: MEC. Casali, A. (2004). Para a construção de um Projeto Pedagógico Escolar nas Escolas Integradas, no Âmbito do Convênio UP – MINED. São Paulo: PUCSP. (mímeo). Freire, P. (1983). Pedagogia do Oprimido. 13 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Freire, P. (2005). A Educação na Cidade. 6. ed. São Paulo: Cortez. Hall, S. (2005). A identidade cultural na Pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 10 ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora. Lima, L. C. (2002). 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Campinas, SP: Autores Associados. 624 Maria Célia Borges Delberio: el proyecto político pedagógico como mediador de la educación liberadora A r t í c u l o s B i b l i o g r a f i a Severino, A. J. (1998). O Projeto Político-Pedagógico: a saída para a escola. In: Revista AEC, ano 27, n. 107, abr./jun. Vasconcellos, C.S. (2000). Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico – elementos metodológicos para elaboração e realização. 9. ed. São Paulo: Libertad. Veiga, I.P.A.; Resende, L.M.G. (2001). Escola: Espaço do Projeto Político-Pedagógico. 5. ed.Campinas, SP: Papirus. Veiga, I.P.A. (2001b). Projeto Político-Pedagógico: Novas trilhas para a escola. In: Veiga, I.P.A.; Fonseca, M.(Orgs.) As dimensões do Projeto Político-Pedagógico. Campinas: Papirus. (Col.Magistério: Formação e Trabalho Pedagógi- co). Veiga, I.P.A.(Org.) (2004). Projeto Político-Pedagógico da escola. Uma construção possível. Campinas: Papirus. (Col. Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico). OPERACIONES PSICOLÓGICAS Arma de guerra del imperialismo contra la revolución. durante los meses previos al referéndum de 2004, durante las elecciones presidenciales de 2006 y ahora recientemente con ¿Por qué buena parte de lo partidarios de la Oposición están los acontecimientos generados a raíz del cese de la concesión disociados? de la frecuencia 2 VHF a la empresa de televisión RCTV. La condición de marxista y psiquiatra, me han permitido realizar Desde que se inicio el proceso revolucionario boliviano en 1999, una serie de observaciones y análisis socio político y psicoló- lo venezolanos hemos vivido los rigores de la guerra que la oli- gico con relación a este tema, los cuales abordaremos en el garquía y el imperialismo emprenden cuando en pueblo decide presente trabajo y en el cual analizaremos la DPs desde varias en forma soberana por el camino de la liberación nacional y el perspectivas. socialismo. EL SÍNDROME DISOCIATIVO INDUCIDO Nos hemos enfrentado a crudas situaciones y a cambios en el Para tener una aproximación al fenómeno de la DPs y que en comportamiento social que se activan cuando se libera la lucha mi estudio hemos decidido denominar como ``Síndrome de Di- de clases. Uno de estos fenómenos lo constituye lo que alguno sociación Inducida´´ (SDI), debemos en primer lugar proceder a especialistas en las ciencias psicológicas han denominado con describir el fenómeno como un cambio integral de la persona- el termino de ``Disociación Psicótica´´ (DPs), lo cual consiste en lidad, parecido a el estado de fanatismo, pero que a diferencia una serie de aliteraciones mentales, emocionales y conductua- de este, se mantiene en forma perdurable en el tiempo, produ- les que hemos observado fundamentalmente en los sujetos que ciendo trastornos que alteran el funcionamiento vital y social del se oponen al proceso revolucionario. individuo afectado. Este`` síndrome ´´ ha estado presente desde la elección pre- Para ayudar a formarse una idea del fenómeno, imaginemos lo sidencial de 1998 que llevo a Hugo Chávez al poder, pero lo que sentimos cuando nos encontramos en un stadium de futbol hemos visto plenamente activado durante los sucesos de 2002 o beisbol, aupando a nuestro equipo preferido en un partido cru- -2003 (golpe de estado, paro patronal y sabotaje petrolero), cial contra del archirrival. Notamos que se produce un estado pasional, colectivo individual, caracterizado por cambios dra- máticos en nuestra mente, emociones y conductas. Gritamos, saltamos, coreamos, hacemos burlas del adversario en lo que podríamos describir como un estado de éxtasis y delirio. Si nuestro equipo gana o pierde, la euforia o la tristeza nos durar tal vez unas cuantas horas, en el peor de los casos un par CONTINUACIÓN PÁGINA 626 625 EDUCERE • A r t í c u l o s a r b i t r a d o s • ISSN: 1316 - 4910 • Año 13, Nº 46 • Julio - Agosto - Septiembre, 2009 • 615- 625.